A primeira reunião em conjunto da Frente Feminista Lisandra
com a Frente LGBT+ Casperiana aconteceu
no dia 20 de março, tendo como tema a
Questão Trans* e sendo mediada por Marina Garcia e Letícia Dias.
Iniciamos a reunião tratando das distinções entre sexo
biológico, expressão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual. O
debate seguiu com dúvidas principalmente relacionadas a percepção do indivíduo
enquanto sujeito trans*, em seguida
caminhou para a invisibilidade social pela qual esta pessoa passa. Foram
enumeradas as infinitas dificuldades relacionadas a vivência cotidiana e a
própria violência que a comunidade trans* sofre, como a utilização do banheiro
e as dificuldades em conseguir usar o nome social em ambientes de trabalho.
As complexidades do tema sendo debatidas em frente ao CAVH, na Cásper
Foto: Marina Braga
Ainda na discussão inicial sobre identidade de gênero e
expressão de gênero foram destacadas as amarras sociais impostas a cada
indivíduo. Socialmente é esperado de cada pessoa, de acordo com seu sexo
biológico, uma série de comportamentos pré estabelecidos sendo desta forma
necessário para atingir a livre expressão de qualquer forma de gênero e
sexualidade o rompimento com este sistema.
O esqueminha trazido pela Marina Garcia para explicar melhor as nomenclaturas e definições / Foto: Marina Braga
Com a maioria das dúvidas mais básicas esclarecidas,
tentamos contextualizar a questão dentro do feminismo. Refletimos se o destaque
dado a mulheres trans* dentro do feminismo e a invisibilidade dos homens trans*
tem a ver com o gênero como elxs foram socializadxs até a transição. Também
falamos sobre os conflitos entre certas correntes do feminismo (principalmente
o feminismo radical) e pessoas trans*.
Exploramos a origem desses conflitos, as motivações por trás
das ações de cada grupo, e procuramos quebrar preconceitos e entender essas
relações de um ponto de vista neutro, para que cada pessoa pudesse fazer sua
própria reflexão e estimular o estudo próprio sobre o assunto.
Na reunião de hoje, contamos com a mediação de uma pessoa de
fora do Grupo de Ação da Lisandra: além da integrante Marina Braga, Maria
Eugênia Holtz também tomou a frente do debate para discutir a questão da
Lesbofobia e da bifobia.
Presentes em nosso cotidiano, esses preconceitos são
explicitados por quebrarem a estrutura social heteronormativa, que parece tão
natural aos olhos de quem toma para si certos signos culturais, como o de que é
o corpo que serve como premissa para nossas relações sexuais. Isso é, nasceu
com um pênis: é menino e sentirá atração por meninas; nasceu com uma vagina: é
menina e sentirá atração por meninos.
Segundo a filósofa Judith Butler, é necessário que essa
ordem compulsória se subverta, desmontando a obrigatoriedade entre sexo, gênero
e desejo: “o gênero não deve ser meramente concebido como a inscrição cultural
de significado num sexo previamente dado (...) tem de designar também o aparato
mesmo de produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos” (trecho
retirado da obra de Butler Problemas de gênero: feminismo e subversão da
identidade, de 2010 – p. 25).
Ao longo da reunião, vários apontamentos foram feitos em
relação a essas fobias (existentes em função da cultura da
heteronormatividade). Sobre o lesbianismo é comum que a gente ouça e leia por
aí, que ele só exista porque “essas mulheres ainda não encontraram o
‘macho-alfa’, o ‘pinto-salvador’” ou qualquer outra denominação que coloque o
homem como salvador.
Não! Mulheres não são obrigadas a cultuar símbolos fálicos! E....sim:
sexo sem penetração também é sexo.
Infelizmente, como explicado acima, a aceitação dessas
condições por uma sociedade patriarcal é muito difícil. E o maior (e pior)
exemplo disso são os “estupros corretivos”: mulheres que se assumem lésbicas
podem sofrer com esse tipo de atitude desumana, que explicita a ofensa pessoal
de um homem em não ser capaz de satisfazer uma mulher.
A mídia colabora muito com a lesbofobia. É o desejo do homem
que está em jogo. A indústria de revistas (inclusive femininas), por exemplo, compactua
por colaborar (e colabora por compactuar) com a cultura heteronormativa,
objetificando as mulheres. Assim também acontece com a publicidade, a mídia
televisiva e radiofônica.
Outra indústria que incentiva (e muito) a lógica de que
“homens que transam entre si são gays e mulheres que transam entre si são
mal-amadas” é a pornográfica. O filme Azul é a Cor Mais Quente é a melhor
quebra dessa exposição machista do sexo entre mulheres. Em filmes pornôs,
mulheres só estão lá para satisfazer o homem que as assiste, então, em uma nova
lógica totalmente nonsense, as atrizes possuem unhas enormes e fazem
performances que não condizem com o que realmente acontece entre lésbicas, pois
se trata de fetiche. Isso mesmo. Mulher foi feita para dar prazer ao homem,
portanto, mesmo quando não transa com o homem, também deve satisfazê-lo). Vide reação de lésbicas ao assistir pornô lésbico (vídeo acima).
Em relação à bifobia, argumentos sem fundamentos são dados
para tentar explicar esse “triste fenômeno que envolve homens e mulheres”. Uma
pesquisa do Datafolha em 2009 apontou que mais de 5 milhões de pessoas no
Brasil são bissexuais. Essas pessoas vão definitivamente contra o maniqueísmo
que a sociedade também defende com unhas e dentes: ou você é hetero ou é
gay/lésbica. Essa indecisão não pode existir. É muita promiscuidade. Ou você
está claramente apenas passando por uma fase.
É tão comum ouvir que “quem se declara/assume bissexual está
tentando escapar da homofobia!” Uma pessoa bissexual encara muitas dificuldades
quando “se descobre”. Acontece que rótulos/definições/nomenclaturas sempre são
dadas às pessoas e a confusão na pequena cabeça da sociedade começa quando
alguém que é taxado de lésbica passa a ficar com homens também. E a pressão é
tamanha, que a própria pessoa se questiona: “estava eu mentindo para mim
mesmx?” Não! Não estava! É normal ser capaz de se relacionar com ambos os
sexos.
É normal se relacionar com seres humanos. O
pansexualismo também é esquecido nessas horas e recebe as piores falácias, já
que “são pessoas que transam com árvores”
Oi?
Umx pansexual é atraídx por todos os gêneros, isso é, sua
atração sexual vai além dos gêneros “convencionais”: trans* egenderqueer. Voltamos, então,
genitalização das definições.
Por fim, o debate voltou as questões ligadas ao filme Azul é a Cor Mais Quente, como as polêmicas cenas de sexo e as interpretações ligadas as sexualidades da Adèle e Emma.
Reunião bombou de novo e o debate foi muito legal! / Foto: Marina Braga
No dia seguinte ao 8
de março, domingo, nos encontramos no Parque Ibirapuera para rever as questões
discutidas durante o mês de fevereiro. Apesar de o sábado ter sido de luta,
desde o ato até nossa participação nas ações da Casa de Lua, nossa primeira reunião
mensal de 2014 foi proveitosa.
Em frente à Oca, no Ibirapuera, uma roda de discussão sobre os temas de fevereiro / Foto: Letícia Dias
Nossa primeira pauta foi retornar às reflexões impulsionadas
pelas ações machistas que ocorreram no trote e falamos sobre machismo no
ambiente universitário. Falamos sobre as ações das Atléticas de cada faculdade,
através de festas e jogos universitários. Além disso, destacamos que as
universidades, inseridas na nossa sociedade patriarcal, refletem as relações de
opressão estruturais como qualquer outra instituição. Como não poderia deixar
de ser, falamos da realidade
casperiana, onde a maioria absoluta do corpo
discente é feminino.
O tema seguinte, no
entanto, acabou concentrando o resto da reunião: culpabilização da vítima.
Assunto delicado, contextualizamos a formação desse mecanismo ainda na infância
e sua influência cada vez mais nociva nas nossas vidas e decisões. Conversamos
sobre casos isolados de abuso e estupro que, infelizmente, ainda refletem um
padrão.
Há quem diga que lutar pelo feminismo é ultrapassado, alegando que as
mulheres já conquistaram tudo o que “precisavam”. Mas não foi isso que as maisde sete mil mulheres em marcha no último dia 8 de março mostraram para asociedade. Munidas de instrumentos de percussão, microfones, carros de som,
cartazes e suas vozes marcharam da Avenida Paulista à Praça Roosevelt, pintando
de roxo a atmosfera de São Paulo em mais um Dia internacional de Luta das
Mulheres.
Lisandra na marcha do 8 de março
A
Frente Feminista Casperiana Lisandra estava presente na marcha. Fomos vestidas
com cartazes coloridos com dizeres como: “Meu corpo não é um convite”, “Lugar
de mulher é onde ela quiser”. Foi extremamente emocionante ver desde crianças,
jovens e senhoras, até homens apoiadores da causa lutando pelo feminismo. Pois,
são em momentos como esse que percebemos que as conversas
que temos dentro da faculdade não são solitárias, não lutamos por uma causa tão
importante e difícil sozinhxs, temos miliares de companheirxs na luta conosco.
Após
a chegada na Praça Roosevelt partimos para o nosso compromisso na Casa De Lua,
local onde aconteceram, neste 8 de março, várias rodas de discussões em torno
do tema ‘mulher’. A roda a qual fomos convidadas para endossar foi sobre feminismo
na universidade contra o trote machista. Lá encontramos colegas do coletivo
Chute da ESPM, Frente Perspectiva do Mackenzie, Coletivo 3 Rosas da PUC, entre
outras pessoas. Foi uma experiência riquíssima, todxs expondo com muito
respeito seu ponto de vista sobre o assunto, dividindo experiências e
discutindo.
Créditos da imagem: DCE da Universidade Federal de Rondônia / Arte por Camila Araújo
Imagem de “A Culpa é Sua!” (campanha anti-estupro estrelada pela atriz de Bollywood Kalki Koechlin e apresentadora de TV Juhi Pandey). Crédito da arte: Camila Araújo
A segunda
reunião do ano da Frente Feminista Casperiana Lisandra reuniu três temas:
cultura de estupro, culpabilização da vítima e slut shaming, e foi mediada por
Camila Araújo e Tamiris Medeiros.
O texto
escolhido para o debate sobre cultura de estupro foi escrito por Cynthia Semíramis para a Revista Fórum e traz uma reflexão sobre a relação de poder
estabelecida pelo patriarcado contra as mulheres, predeterminando papéis de
gênero e “punindo” com agressão física, verbal, violência sexual e feminicídio,
as mulheres que não se enquadram ou rompem com essas imposições. Nessa
estrutura o corpo da mulher é visto como propriedade masculina, e uma das
formas de perpetuar o papel de inferioridade e submissão, se dá pelo controle
das roupas, comportamentos e da sexualidade.
O debate
seguiu para a pauta culpabilização da vítima, que compreende em um “ande na
linha ou aguente as consequências”. Entendemos com a leitura do texto e
discussão, que a vítima é culpabilizada por estar fora do espaço que “lhe
compete”, ou seja, cozinha, casa, etc. A discussão ficou
mais acalorada quando foi citada a popularidade da pornô de revanche (revenge
porn), que tem perpetuado o machismo estrutural da nossa sociedade. A pornô de
revanche consiste em expor, humilhar e massacrar as mulheres que tiveram fotos ou
vídeos íntimos expostos na internet, como se estivessem cometido algum crime.
Fazer sexo não é crime, filmar ou fotografar também não é crime, entretanto,
divulgar vídeos e imagens de alguém, sem autorização, é crime.
No fim de
2013, houve um caso em Goiânia de uma mulher que foi exposta pelo ex-parceiro
em um vídeo que ficou popular na internet. Ela parou de estudar, saiu do
emprego e ainda virou uma “piada”, como se já não bastassem todos os
xingamentos que ouviu, injustamente. Em casos mais extremos de culpabilização
da vítima, algumas meninas não suportaram toda a humilhação e cometeram
suicídio.
A discussão foi ficando acalorada e
entramos em slut shaming – expressão usada para descrever a inferiorização da
mulher por meio de diversos insultos direcionados ao gênero, indo de
“oferecida” até “vadia”.
O vídeo abaixo foi gravado por duas
atrizes indianas em resposta aos altos números de estupros na Índia, e aos
discursos de ódio direcionados às mulheres:
O comportamento sexual, as roupas, o
jeito e tudo que uma mulher faz, é constantemente vigiado e criticado por uma
sociedade patriarcal e conservadora.
A foto ficou pequena para tanta gente que se espremeu em uma "roda" para a primeira reunião de 2014!
(Imagem: Marina Braga)
A grande surpresa na primeira reunião de 2014
para a Lisandra foi o número de pessoas presentes em frente ao CAVH para
debater sobre o trote e práticas machistas, em geral, nas universidades.
60 estudantes da Cásper, calourxs em sua
maioria, apertaram-se em uma roda que agora mal cabia no espaço, mas que antes era mais que suficiente. Mesmo assim, o debate rendeu e era possível ver a
vontade de cada umx de estar ali, conversando, trocando opiniões, discutindo da
maneira mais saudável.
Quem mediou a reunião foi a Marina Braga, que
levou dois textos ( "Machismo na universidade: até quando?" + "Fica o aviso de que trote opressor não é diversão" ) para apontar questões mais polêmicas. Antes de entrar no tema, Marina
apresentou a Lisandra e contou um pouquinho de como a Frente funciona: reuniões
semanais e mensais, os eventos, o Grupo de Ação etc.
A discussão começou com a polêmica que o trote
de 2014 na Cásper gerou e muitas das pessoas presentes concordaram que a
violência no evento foi desnecessária. O conceito de que os trotes na Cásper
não costumam ser violentos é errôneo, já que não é preciso que haja agressão
física, o constrangimento moral é
peça-chave para a perpetuação machismo, tanto no âmbito universitário, quanto
nas relações sociais em geral.
Acerca da simulação de sexo oral que calouras e
calouros (em menor quantidade) foram submetidxs, o concenso geral da reunião
foi de que não é fácil dizer que "só fez quem quis". A falta de força para dizer NÃO vem do
fato de que a sociedade reprime cotidianamente mulheres e homossexuais, ou
seja, o privilégio dxs veteranxs intimida e remete à opressão que essas pessoas
sofrem.
Aliás,
é por isso que a polêmica também abrange o fato de que (principalmente após a
divulgação das fotos pela mídia) uma menina ter sido submetida a essa situação,
dá margem para QUALQUER mulher ou homossexual se sentirem ofendidxs -
independentemente de quem chupou o pepino, tenha se ofendido ou não.
Outra crítica veemente feita durante a reunião
foi em relação à linha de pensamento “fizeram comigo ano passado também”.
Estudantes de comunicação devem repensar a importância do papel que têm na
sociedade. Estamos na Cásper Líbero estudando justamente para aprendermos a
questionar e a nãorepetir certos
atos com justificativas e ideias prontas.
Resultado de um domingo no parque: oficina de
camisetas da Lisandra para fiscalizar machismos no trote
da Cásper. (Imagem: Marina Braga)
Em relação às roupas cortadas, apesar da
campanha da Lisandra para que veteranxs perguntassem antes para xs calourxs, se
podiam usar a tesoura e qual era o limite, foi notável o desrespeito para com a
galera que acabou de entrar na Faculdade. Muitxs na reunião se perguntaram como
essas pessoas voltaram para casa, já que algumas estavam seminuas, totalmente
expostas. No caso das mulheres, sutiãs e calcinhas estavam parcial ou
totalmente expostos. Ainda houve o caso de uma garota que teve suas mãos e
pernas cortadas por “acidente”.
Trouxeram para o debate a questão que também
foi discutida em redes sociais: muitas mulheres reproduziram comportamentos
machistas durante o trote, pois elas também fizeram calourxs simularem sexo
oral. Mas…fica a indagação: existe mulher machista?
Poderíamos mudar os termos e pensar sobre o
racismo que vem de negros ou a homofobia que vem de homossexuais. A resposta é
a mesma (que ajuda a perpetuar e até legitimar os preconceitos): é a tomada
para si de uma mentalidade dx opressorx. Talvez por haver vantagens (na vida
social, na vida familiar, no trabalho etc), a questão é que: não é possível uma
única pessoa exercer os dois papéis, de oprimidx E opressorx. Uma mulher
(oprimida) machista (opressora). Um negro (oprimido) racista (opressor). Uma
lésbica (oprimida) homofóbica (opressora). E por aí vai.
Não existe mulher machista!
(Imagem: página no Facebook "Moça,
você é machista")
Mulheres machistas não querem ser incomodadas
com esse papo-aranha de que o mundo precisa mudar. Tá tudo bem do jeito que tá.
Pra que ser uma feminista-gorda-feia-histérica-lésbica-peluda-que-odeia-homem-mas-(misteriosamente)-quer-ser-homem!?
Nasci assim, não preciso sair do meu lugar, não é mesmo?
Bem…voltamos à questão de estarmos em uma
Faculdade de comunicação, na qual aprender a questionar toda e qualquer mentalidade
é o ideal. Seria o ideal. Porque a falta de comunicação (ou da vontade de se comunicar) é visível. Em meio a grande repercussão da notícia sobre o adolescente que foi amarrado à um poste no Rio de Janeiro (fato que ocorreu na semana anterior ao trote), veteranxs de Publicidade e Propaganda também amarraram um calouro à um poste. A alegação foi de que "não sabiam do ocorrido". Futurxs comunicadores que não se atentam aos fatos cotidianos: qualquer pessoa que visse a cena faria imediatamente a associação.
E por falarmos em “ideal”, o que restou foi a
pergunta: "qual seria o 'trote ideal’?”. Uma fala muito importante foi feita
logo no finzinho sobre o desperdício de comida que sempre rola nesse ritual de
passagem. Disseram que no trote da manhã, mendigos se uniram à “nossa diversão”
para aproveitar o resto dos peixes que haviam na porta da Paulista, 900.
Seria realmente muito bom que a reflexão não
parasse por aqui e que o amor pela Cásper fizesse crescer mais humanidade dentro
dxs respectivxs casperianxs. Em 2015, a Lisandra estará presente e espera que
atitudes como as que debatemos, não voltem a acontecer.
Aqui, alguns (muitos) portais que divulgaram o ocorrido:
A primeira noite da Semana de Integra (12/02) foi organizada
pela Frente Feminista
Da esquerda para a direita: Camila, Tamiris, Giulia e Natália guiando o Quiz (Imagem: Marina Braga)
Casperiana Lisandra e dividida em dois momentos: o ‘Quiz’
e a palestra sobre mercado de trabalho, ambos realizados no saguão do 5º andar
da faculdade.
Durante o ‘Quiz’, parte do Grupo de Ação da FFCL lançou provocações a veteranxs
e calourxs que estavam presentes. Um debate foi gerado logo de cara com o trote
de 2014 como tema. Toda a polêmica dos abusos cometidos por parte dxs veteranxs
foi discutida entre quem estava presente. Além disso, as meninas da Lisandra
jogaram na roda questões como o “Revenge Porn” (fotos íntimas que acabam sendo
divulgadas na internet), a objetificação do corpo da mulher e as famosas
cantadas de rua.
Satisfeito com o resultado do ‘Quiz’, o público permaneceu no saguão para assistir
a palestra em sequencia, que teve como carro-chefe a pergunta “existe
diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho?”. A integrante do
CAVH Beatriz Cano (3º ano de Jornalismo) mediou as falas e um novo debate foi
aberto ao fim delas.
Três convidadas fizeram parte da mesa: a jornalista e
colaboradora do Blogueiras Feministas, Luana Franca; a advogada e economista integrante
do Jovens Feministas de São Paulo e consultora do , Lia Lopes; e a aluna do 2º
ano de Jornalismo pela Cásper e integrante da FFCL, Marina Braga.
Por ser muito ampla, a questão do mercado de trabalho não pode ser englobada
apenas pelo feminismo. É um problema geral. A maioria das pessoas não trabalha
por gosto ou por realização, mas por necessidade de sustento, como o
capitalismo exige. Mas é ainda mais difícil para quem excerce a dupla ou
tripla-jornada, ou seja, as mulheres. E é comum ouvir dizer que “o feminismo é
culpado por essa situação em que elas se encontram por ter feito com que se
emancipassem”. Contudo, a emancipação da
mulher é resultado da indignação com a história em que metade da humanidade se
viu excluída nas diferentes sociedades, no decorrer dos tempos.
Como descreveu Virginia Woolf em “Profissões para mulheres e outros artigosfeministas”, a mulher deve ser o “Anjo do Lar”: meiga, delicada, educada, saber
agradar e não dar sua verdadeira opinião (afinal, a mulher não a possui). É como se
houvesse um “destino biológico”, que se configura como um destino imutável para
homens e mulheres, definindo o padrão nas relações de gênero, onde o homem é o
chefe da família, assume o controle da política e trabalha, enquanto a mulher
fica responsável pelos serviços domésticos, por cuidar dos filhos e do marido e
mantém-se como símbolo da procriação.
Dessa forma, as reivindicações trabalhistas feministas, a
luta por direitos iguais entre mulheres e homens no extra-lar, colocou em xeque
as opressões machistas da sociedade em relação para com as mulheres,
principalmente porque estas reclamaram o campo social considerado ativo,
modificando, portanto, costumes, ideais e ideologias, o que a levou a conhecer
a si mesma, suas possibilidades e potencialidades, abrindo mão da submissão e
do medo, e dando os primeiros passos para a conquista do empoderamento.
Hoje o ambiente de trabalho de muitas empresas é machista,
ainda com muitas piadinhas e assédio sexual. A mulher está mais sujeita ao
assédio em todas as carreiras. O quadro piora devido à cultura brasileira da
objetificação do corpo feminino e à ideia de que as mulheres dizem ‘não’
querendo dizer ‘sim’.
Lia Lopes falando sobre o "destino biológico" da mulher
(Imagem: Marina Braga)
Dados da Organização Internacional do Trabalho indicam que
52% das mulheres economicamente ativas já foram assediadas sexualmente. É o
segundo maior problema depois dos baixos salários e, muitas vezes, faz com que
a mulher se demita.
Pois é, o salário é desigual, e mulheres ganham cerca de 30%
menos que os homens na mesma função, apesar de muitas vezes ter maior
escolaridade.
Se ensinada desde pequena a ser passiva e insegura, isso vai
se refletir no futuro da mulher, já que a competição e a ambição nem sequer são
fomentadas nas meninas. A educação familiar que recebem e os jogos infantis
enfatizam a cooperação e a conciliação. O êxito profissional não faz parte da
identidade feminina: uma mulher 'realizada' é aquela que se casa e tem filhos,
não a que ascende a uma posição de liderança em sua profissão. Além disso, uma
mulher sumamente bem-sucedida no trabalho tende a ser percebida como menos
feminina: as qualidades exigidas para alcançar sucesso em qualquer área -
capacidade, ambição, assertividade, iniciativa e liderança - costumam ser
consideradas masculinas.
Ainda seguindo a lógica capitalista de “para sobreviver na nossa sociedade é
preciso ter dinheiro e para ter dinheiro é preciso trabalhar”, uma mulher que
tenha filhxs se vê em uma situação muito mais complicada: ou deixar as crianças
com alguém ou alguém terá que trabalhar por ela.
Mas, então, como faz uma empregada doméstica, por exemplo?
Ela não tem essa escolha de poder ou não trabalhar. Não é uma opção pras
mulheres pobres ficar em casa cuidando dos filhos. Nunca foi. E é essa,
inclusive, uma grande crítica à boa parte do feminismo: só fala às mulheres de
classe média. É um movimento burguês, que não contempla todas as mulheres,
porque, lógico, a luta de uma mulher negra que mora na favela não é a mesma de
uma branca de classe média.
Ainda há vertentes do feminismo quereforçam o estereótipo de que as mulheres são
as únicas responsáveis pelos cuidados com as crianças. Ou seja, a mulher não se
limita a maternidade, mas todas as funções e cuidados com o filho/a filha devem
ser executadas pelas mulheres. Como falar em cuidados compartilhados
entre os pais se a licença paternidade é de apenas cinco dias enquanto a
licença maternidade é de quatro a seis meses? A não criação de vínculo parental
pelo pai da mesma forma como acontece com a mãe, pela ausência de tempo
dedicado, leva a nefastas consequências, como o acúmulo de tarefas pela mãe que
também trabalha fora de casa.
Obs.: a Lia Lopes nos passou referências de textos e pesquisas que relatam melhor a situação da mulher no mercado de trabalho! Vale a pena dar uma olhada :)