domingo, 6 de outubro de 2013

Reunião mensal: resumo de setembro


Imagem: Camila Araújo

Iniciamos a discussão deste domingo falando sobre a 21° Semana de Jornalismo, mais especificamente sobre a mesa que debateu o tema “Conteúdo das revistas masculinas”: até que ponto os produtores das revistas masculinas tem consciência da sua colaboração para a objetificação da figura feminina? Entendemos que o mercado dessas publicações se baseia em um círculo vicioso: a demanda pedindo e consumindo um conteúdo machista e a mídia formando a consciência de sua demanda. A revista masculina não se posiciona como emancipadora deste quadro, afinal, ela tem o poder de escolher o conteúdo veiculado, porém, as grandes publicações preferem se acomodar a saírem da zona de conforto que o machismo lhes oferece.

Abordamos também a Black face, que se resuma na personificação do racismo. A personagem “Adelaide”, do programa Zorra Total, exibido pela rede Globo é a black face mais famosa atualmente. Nela, a mulher negra é reduzida a um arquétipo de pobre, negra, incômoda, fedida e banguela, o que nos leva a reflexão: qual é o papel da mulher negra num Brasil onde em vagas de emprego aparecem os requisitos “aparência formal” ou “ter boa aparência”? Qual é o papel da mulher negra num Brasil onde em pleno horário nobre é mostrado no veículo de maior audiência do país um personagem como Adelaide? A mulher negra na mídia brasileira é algo que deve ser pensado e repensado.

Os presentes na reunião cogitaram a existência de uma hierarquia de gênero e de raças, onde o homem branco reina no topo, seguido da mulher branca, homem negro, e, abaixo de todos, a mulher negra.

Esta hierarquia se evidencia nas novelas brasileiras, que seguem basicamente o mesmo padrão: o homem branco, sendo o chefe de família; a mulher branca, apesar de submissa ao seu marido, mandando em sua casa e criados; o homem negro como empregado ou bandido; a mulher negra como empregada ou cozinheira, mas sempre um símbolo sexual à disposição dos homens.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aborto + Biologia Feminina

Aborto no Brasil: a lei que mata


Imagem: Viardel Cosme - Anatomical view of pregnant woman /
 Arte: Giovanna Cartapatti
O caso da criminalização do aborto é uma grande prova de como uma lei, baseada em opiniões moralistas e religiosas (e não na evidência de fatos sociais, como deveria ser), prejudica a saúde coletiva de modo tão gritante. Na reunião desta quinta-feira escolhemos dois textos de pesquisa acerca do tema no âmbito da saúde pública brasileira. O primeiro deles é um artigo editorial da RevistaBrasileira de Ginecologia e Obstetrícia, “Novamente a questão do aborto noBrasil: ventos de mudança?”, escrito pelo professor Rodolfo de Carvalho Pacagnella, do departamento de medicina da Universidade Federal de São Carlos; e o segundo, escrito pela pesquisadora Greice Menezes, do departamento de medicina da Universidade da Bahia, “Pesquisa sobre o aborto no Brasil: avançose desafios para o campo da saúde coletiva”, que apresenta dados e conclusões sobre a perspectiva do tema no país.

A criminalização do aborto envolve questões médicas, jurídicas, éticas, morais e religiosas. Em 2012, foi aprovado no STF, por dois votos contrários e oito a favor, a não criminalização do aborto em casos de fetos anencéfalos, o que forçou o debate acerca da autonomia da mulher e do direito reprodutivo. Em 2005/2006, foi feito um estudo com 4000 juristas no Brasil que observou que mais de 80% deles acreditavam que as circunstâncias de não criminalização do aborto deveriam ser ampliadas. Apenas 10% dos católicos do país acreditam que a igreja deva prevalecer sobre a diversidade de opiniões. Seriam esses alguns “entretantos” que comportam os ventos de mudança?

Entre muitos (ou nem tantos) “entretantos”, não é a clandestinidade que mata as mulheres no aborto. E sim a vulnerabilidade social. Estudos mostram que as mulheres que optam pelo aborto chamado inseguro, em sua maioria, são pobres, negras, migrantes, de baixa renda e escolaridade, solteiras e sem acesso à contracepção. A mulher rica tem mais entrada e menos insegurança no processo, portanto, mais chance de viver. Apesar de, no geral, o aborto ter porcentagem mais baixa em comparação a outros casos de morte e morbidade materna, quando há alguma complicação no aborto (sobretudo no inseguro), ela é mais prevalente. Cerca de 5% das mulheres que têm complicações no aborto chegam ao near miss materno, expressão utilizada para categorizar as grávidas que chegaram à quase morte durante quaisquer complicações na gestação.
Imagem: Marina Braga

Mas, então, o que leva às complicações no aborto inseguro? Menos o biológico do que a carência da assistência técnica, com certeza. Existe uma norma brasileira, intitulada Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, cujo nome é autoexplicativo, que, mesmo em condição de norma, é impedida de ser concretizada pela carência de vagas nos cuidados de pós-abortamento e pela discriminação dos médicos perante as pacientes. O que nos leva, novamente, à questão da lei. Estudantes de medicina não são treinados para lidar com tais questões, além do preconceito causado pela criminalização do ato.

Ainda há outra questão inerente ao caso do aborto: a gravidez indesejada. O sentimento negativo que, desde a suspeita de gravidez cerca as mulheres, levam-nas a ter o aborto como única consequência em uma história de alternativas escassas. Decisão que traz consigo mais sofrimento físico e emocional, justamente pela criminalização. Embora, no Brasil, tenha havido melhoras no acesso à contracepção pelas mulheres de nível socioeconômico mais baixo, segundo a PNDS de 2006, 26% das mulheres em questão, de 15 a 44 anos, não utilizam nenhum método contraceptivo. Além de que, deve-se considerar as relações de gênero implicadas na obtenção de contracepção. Embora continue como um domínio feminino, a escolha do método pode ser feita em função de preferências dos homens. O que resta, então, é a clandestinidade. Em um contexto de sistema de saúde ineficaz, a ilegalidade está sim associada aos procedimentos inseguros e à demora no atendimento médico.

O aborto é objeto de forte sanção social. E a gravidez fora do planejamento familiar também. É curioso como jovens de maior renda relatam menos ocorrência de gravidez do que as de menor renda, mas, se isto aconteceu, recorrem mais ao aborto (o mesmo acontece nos casos de violência: mulheres pobres denunciam mais do que as ricas, é tudo uma questão de status). Há recorrências em estudos que investigam óbitos maternos de jovens grávidas por suicídio. A estrutura da ilegalidade leva a tormentos psíquicos. Se a desculpa da lei for o gasto público, há uma pesquisa avaliando que, em 1991, no Rio de Janeiro, o total gasto com internações por causas de complicações no aborto inseguro seria suficiente para que o estado assumisse a realização de aproximadamente 62 mil abortos seguros, ou seja, 91% dos procedimentos estimados para aquele ano.

São por essas e outras que os resultados dos estudos acadêmicos devem ter divulgação mais ampla na sociedade, de modo a superar a visão dualista e ideologizada que marca a discussão sobre o direito ao aborto no Brasil.



+ Vídeo postado no instagram com trecho da reunião

BLACK é lindo e está por toda parte

Ser negra não é profissão.

Imagem: Marina Braga

A Frente Feminista Casperiana Lisandra (FFCL) promoveu para a Semana de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero uma debate sobre uma questão silenciosa que pede barulho.  Uma discussão isolada para alguns, porém bastante presente para outros, que aborda sobretudo o retrato da mulher negra na sociedade em que vivemos.

Desta vez, o tema foi acerca da Mulher Negra na Mídia, e como um bom espaço de discussões, o debate ultrapassou o tema pontual e contemplou, com a ajuda das convidadas, outras questões inerentes ao assunto.

Charô Nunes, que escreve para a página Blogueiras Negras, introduziu o tema com o conceito de Black Face. De acordo com a escritora, a imagem do negro sempre foi vítima da potencialização de estereótipos de cada época.  Assim, se na década de 30 o homem e a mulher negra eram animalizados, na década de 70 passaram a representar o malandro e a ‘sexualmente disponível’, assim como nos dias de hoje são representados como subalternos ou serviçais, se forem representados.

A Black Face nada mais é do que a internacionalização do racismo, que vai se consolidar naturalmente por meio da invisibilidade difundida pelas mídias, seja em novelas, noticiários ou programas humorísticos. Os exemplos desses casos se jogam aos nossos olhos quando ligamos a televisão, principalmente no que se refere a programas de humor, que usam essencialmente figuras como o negro, o pobre, a mulher e o homossexual como foco de chacota. Sobre isso Charô deixou bem claro, não se enganem: “O humor que ri do oprimido é o cimento para consolidar o racismo e outros preconceitos”, assim os torna confortáveis aos olhos.

A jornalista Juliana Gonçalves falando sobre o retrato da mulher negra pela mídia, como "o lugar que me colocaram", a projeção do negro pelo branco, o preconceito como forma de silêncio.
 (Imagem: Marina Braga)
Pegando o gancho deixado por Charô, Juliana Gonçalves, jornalista que faz parte da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), evidenciou os estigmas que as mulheres negras carregam, o que é reafirmado e consolidado por sua ‘invisibilidade’. Entre esses estigmas está o desnível no salário e a desvalorização da aparência negra – como cabelo black, que é associado a informalidade.  Diante disso, Juliana afirmou que o silêncio é um “fiel guardião de privilégios dos opressores” e que vigora enquanto o cultivarmos.

Sobre a maneira como a mulher negra é retratada nos veículos de comunicação, Fernanda Alcântara, editora chefe da revista Raça Brasil, denunciou a grande lacuna que existe quando o assunto é essa imagem das mulheres negras, afinal a grande questão é: onde estão estas mulheres? Sem dúvida estão por toda parte, com exceção das capas de revistas. Fernanda falou da exclusão da beleza negra da consagrada ‘beleza padrão’, e o modo como esta é padronizada e vista como uma categoria - “beleza exótica”- enfatizou ainda, assim como as outras convidadas, a sua ausência nos veículos em geral.

O que podemos ver é que o modo como as mulheres negras são representadas pela mídia interfere na imagem e na construção de uma identidade fora dos holofotes, afinal, como assumir uma identidade que é estigmatizada, vitimizada e não representada? Justamente por isso que assumir-se negro é considerado uma posição política. Se assumir negro é, sobretudo, enxergar essas injustiças, ou seja, reafirmar que o racismo EXISTE e a partir disso lutar para que haja mudanças.

Eu, particularmente fiquei satisfeita em ver a sala lotada e os olhos atentos e interessados nas questões discutidas, não apenas por eu ser uma mulher negra, mas também porque acredito que o debate sobre questões que ficam à margem da representatividade não permite apenas dar voz ao silêncio que se instaura envolta destes assuntos, como também denunciar essas discriminações de maneira a cultivar uma mudança, afinal o racismo não é um problema só dos negros.


+ Vídeo postado no instagram da Lisandra com trecho da palestra

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Esquizofrenia das revistas femininas

Xs convidadxs da palestra: Deborah de Souza, Fernando Luna
e Clara Averbuck; a integrante da FFCL Beatriz Cano e a
mediadora, Helena Jacob / Imagem: Marina Braga
Na noite do segundo dia do ciclo de palestras da 21ª Semana de Jornalismo da Cásper Líbero, a Frente Feminista Casperiana Lisandra, em espaço cedido pelo Centro Acadêmico Vladmir Herzog, organizou quatro mesas simultâneas que abordaram temas pautados pelo feminismo e relacionados intrinsecamente com os meios jornalísticos e a mídia em geral. Uma das mesas focou o conteúdo veiculado em revistas rotuladas como femininas, e em como ele afeta suas leitoras. 
Para debater esse tema, foram convidados Déborah de Souza, que já passou por redações de revistas como Claudia e hoje é editora de comportamento da Marie Claire; Fernando Luna, com passagem pela revista Capricho e um dos idealizadores da revista Tpm; e Clara Averbuck, escritora, blogueira feminista e colaboradora da Carta Capital. Representando a Frente Feminista, também compôs a mesa a aluna Beatriz Cano, do 2º ano de Jornalismo da Cásper. A professora Drª Helena Jacob, mediadora da mesa, abriu o debate dizendo como o assunto lhe interessava pessoal e profissionalmente.
A discussão de início se dedicou ao futuro incerto do jornalismo impresso, que se encontra em crise. Faz sentido discutir o conteúdo das revistas, uma vez que elas estão fechando em abundância? Todos concordaram que sim, e nenhum dos convidados acredita que esse possa ser o fim das revistas como veículo  – crise, como Fernando Luna destacou, nada mais é que uma mudança, e o jornalismo passa por crises desde sua criação. 
Pelo Twitter, Clara Averbuck anuncia sua participação
na palestra organizada pela FFCL
Voltando ao foco do debate, Déborah de Souza destacou que o conteúdo das revistas femininas reflete a sociedade: “Esses valores que nós passamos na revista – eles estão pulverizados no cinema, na TV, na música… As revistas não existem num vácuo”. Clara Averbuck, por sua vez, reconheceu essa realidade, mas a criticou duramente: “A mudança tem que começar por algum lugar. Eu tento ter esse espaço positivo no meu blog, mas ele geralmente só atinge pessoas que concordam em algum nível comigo, salvo um ou outro indivíduo que chega lá por um compartilhamento de Facebook, por exemplo”.
Foram questionados os padrões de beleza sustentados por esses veículos, mostrando apenas modelos e atrizes brancas, geralmente loiras e magras ao extremo (“algumas parecem aquelas bonecas Monster High!”, comentou, indignada, Clara) e veiculando dietas que prometem perdas de peso significativas em pouco tempo; ou a conquista do que vem se chamando de “barriga negativa”. Sobre isso, Fernando Luna ponderou: “Estão vendendo ilusões. Tudo isso é mentira. Se qualquer outro segmento profissional fizesse promessas assim, seria sem dúvida processado pelo Procon”.
A complexidade do problema foi claramente exposta por Déborah: “Vejo uma esquizofrenia no conteúdo das revistas femininas. Num mês publica-se uma matéria com modelos plus size, defendendo a liberdade para ser feliz e a positividade de amar seu corpo. Mas algumas edições “mais pra frente”, as essas publicações voltam a dar dietas milagrosas novamente”.



+ Video postado no instagram da Lisandra com trecho da palestra

Machismo: tendência old fashion? A visão deles sobre a questão

Na mesa 4: Fel Mendes, Ricardo Lombardi, Ivan Padilha e, o membro da FFCL Dante Felgueiras debatem sobre como o conteúdo das revistas masculinas afeta os homens, mediados pelo professor Carlos Costa. / Imagem: Marina Braga
Apesar de a Frente Feminista Casperiana Lisandra já ter protagonizado interessantes discussões a respeito do papel da mulher em diversas esferas da sociedade e sua relação com o machismo, era preciso promover um debate que viesse sob uma nova ótica, afinal é sempre bom buscar novas maneiras de enriquecer nossas reflexões. Partindo do pressuposto de que se devem ouvir os dois lados de uma questão, a Frente resolveu convidar conceituados jornalistas do mercado de revistas masculinas para que, a partir da experiência deles, explicassem o processo de concepção das matérias veiculadas em suas revistas e, mais importante: o quanto elas contribuem ou possam vir a contribuir para a perpetuação do machismo.

Como o homem se relaciona com aquilo que lê nessas revistas e se isso colabora para seu comportamento sexista. Essa era, provavelmente, a maior questão pela qual se esperava algo o mais próximo possível de uma “resposta”. O primeiro a dar a palavra foi o Maurício Barros, diretor de redação de PLACAR. “Me parece que o futebol seja o último reduto do machismo tosco e borracheiro”, talvez tenha sido uma das suas poucas considerações relevantes no fomento do debate. Infelizmente, Maurício tinha um compromisso que o impossibilitou de ficar até o fim, mas enquanto esteve presente pouco acrescentou e comentou a respeito da mulher no contexto dessas revistas, reduzindo suas colocações a respeito da mudança editorial pela qual PLACAR passou nos últimos tempos e, o que me pareceu no mínimo irônico em se tratando de um debate promovido por uma frente feminista, de como PLACAR é “uma revista de macho”. Se foi por brincadeira que ele comentou isso ou não, deixo que vocês tirem suas próprias conclusões.

Logo depois foi a vez do Ivan Padilla, diretor de redação da GQ. “Não é fácil fazer uma revista masculina porque o homem se relaciona com a revista de maneira diferente das mulheres. Vejo na Glamour (que fica no mesmo prédio) mulheres que vão na redação pra conhecer a equipe, não é o que acontece na GQ.  O leitor masculino é um pouco mais cético”. Justamente por esse envolvimento mais “superficial” do homem, tanto o Ivan quanto o Ricardo Lombardi (diretor de redação da VIP) acreditam que é mais libertador escrever para homens, mas também complicado quando o assunto são as belas mulheres que estampam as capas de suas publicações. Quando indagados sobre o padrão de beleza dessas modelos, Ricardo foi categórico: “Quanto mais famosa for a mulher, mais ela vende. A revista é um negócio, ela precisa dar lucro. É uma lógica capitalista que continuará valendo. Já coloquei famosas na capa que nem eram tão interessantes, mas porque eu sabia que venderia mais do que se eu colocasse uma desconhecida. Mediador do debate, o professor Carlos Costa, que citou o sociólogo e semiótico Eliseo Verón para explicar essa perspectiva mercadológica: de acordo com o argentino, existe um contrato de leitura, que é a relação estabelecida entre leitores e publicação, isto é, o leitor tem uma demanda a qual essas publicações se comprometem a atender. Se o leitor percebe uma “traição” por parte desses veículos, ele então “rompe” o contrato e não mais compra a revista.

Ainda sobre a lógica da mulher como “objeto do prazer hedonista do homem” através dos ensaios sensuais, eles explicaram a difícil conciliação entre agradar o leitor que compra a revista para ver a mulher (“sabemos que o homem compra a revista pela mulher na capa, mas tentamos oferecer algo a mais para ele”, de acordo com Fel) e a modelo que pede para ser retocada porque vê defeitos na foto original. “Mostro pras modelos as fotos, mas elas reclamam. Há o dilema: tenho o compromisso com o público, mas tenho de agradar a modelo”, como colocou Ricardo. Para Fel Mendes, redator-chefe da Sexy, também “é uma situação muito delicada: a mulher tira a roupa com umas 8 pessoas no estúdio e, por isso, nem sempre se sente à vontade para algumas fotos. A depender do que a gente ofereça, a gente recebe reclamação do leitor. Sei que a Sexy ainda carrega este machismo da mulher objeto, mas tentamos fugir disso”. Já o Ivan completou explicando que essas fotos giram entre os eixos aspiracional e inspiracional, mostrando aquilo que provoca, insinua, mas não de forma escancarada. Se dependessem dos debatedores, as fotos receberiam o menor retoque possível.

Mas e o machismo? “O machismo é absolutamente old fashion”, resumiu o Maurício aquilo que foi consenso para os jornalistas convidados. Para eles, o homem tem mudado e, por isso, não cabem mais “pautas para o homem alfa”.  De acordo com o Ricardo: “Não dá pra fazer uma revista masculina machista em 2013, desconectada do mundo. Temos um cenário em que a mulher se coloca numa posição bastante interessante. A nota de corte dela aumentou bastante, o homem hoje tem de ter um repertório cultural”. Já para o Fel, talvez exista uma realimentação desses estereótipos sexistas, mas a sacada é tentar fugir disso, até porque “existe também um senso crítico, o leitor não assimila tudo assim”. E completou: “Acho que a melhor maneira de mostrar o machismo para o homem é trazer com certo humor essa discussão pra mostrar que ele é sim machista”.

O jornalismo masculino pode ter mudado, acompanhando esse homem contemporâneo, mas isso não significa que o DNA de suas revistas tenha alterado. “A gente continua falando com o macho urbano, mas cada um a sua maneira”, segundo Ricardo. As revistas para o público masculino seriam o momento do homem para si, “um momento de transgressão desse homem que convive em espaços que há maioria feminina. Acho que tem momentos e momentos da vida. É a revista dele, o momento dele. Ele não precisa negociar com a mulher. É um momento que ele se relaciona consigo mesmo e não com o mundo”.

Quanto dessa relação do homem é capaz de prejudicar a mulher no tange ao estabelecimento de padrões que corroboram num pensamento machista? Isso não foi respondido na mesa de terça, mas deveria ser pensado mais vezes. Apesar da dinâmica mercadológica necessária para manutenção dessas revistas, o olhar cuidadoso ao conteúdo delas deve ocorrer. Ainda que este macho urbano seja contemporâneo e não mais tenha vontade de consumir um conteúdo preconceituoso, não devemos esquecer que nessa selva de pedra, ainda há muitos “alfas” rondando.


+ Vídeo postado no instagram da Lisandra com trecho da palestra

O machismo mata. O feminismo vive!

Na mesa 1: as convidadas Juliana de Faria e Sílvia Amélia debatem com
integrante da FFCL Carolina Serpejante sobre o feminismo na mídia,
juntamente ao professor Chico Nunes, que mediou a conversa / Imagem:
Marina Braga

A Frente Feminista Casperiana Lisandra teve seu espaço na Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e soube aproveitá-lo da melhor maneira possível. Escolheu quatro temas pertinentes (não esquecendo dos demais, mas havia um limite) e os distribuiu em salas diferentes, para que cada pessoa pudesse decidir em qual sala ficaria. Bonito e ao mesmo tempo triste não poder ver os quatro debates, e este foi um sentimento que tomou conta de grande parte dos presentes naquela noite.

Na sala onde o “Feminismo é a Mídia” era o tema central, as convidadas eram Juliana de Faria, este tópico foram: Juliana de Faria, jornalista e blogueira do thinkolga.com e uma das criadoras da campanha “Chega de Fiu-fiu”, e Silvia Amélia, ex-editora de comportamento da Gloss. A mediação ficou por conta do professor de Filosofia da Faculdade Cásper Líbero e da estudante do quarto ano de Jornalismo e membro da FFCL, Carolina Serpejante.

Juliana introduziu sua fala comentando aquilo que considera um dos maiores, senão o maior problema das revistas femininas tradicionais: elas são monotemáticas. Abordam sempre os mesmos assuntos que são direcionados ao mesmo público e esquecem a diversidade imensa que há entre as mulheres e também esquecem que as mulheres atuais não são como as de 30 anos atrás, mas ainda escrevem como se fôssemos, ignorando todas as lutas, conquistas e mudanças pelas quais passamos em pouco tempo.

Silvia começou contando como entrou para a revista Gloss: através de uma sugestão de pauta que falasse sobre os - tantos - casos em que mulheres são assassinadas por ex-companheiros que não aceitaram o fim do relacionamento. A editora da revista aprovou a pauta e a chamou para executá-la. Durante os 3 meses em que apurou as informações, descobriu coisas absurdas, como o fato do tema ser sempre abordado como caso isolado, sendo que se juntarmos o máximo de ocorrências que pudermos num curto espaço de tempo, perceberemos que o número é assustador e trata-se de um fenômeno. Notou também que, ao aconselhar uma mulher que estava sendo ameaçada por ex-namorado/marido, dar o telefone da Delegacia da Mulher não bastaria. Inclusive, seria completamente ineficiente e em alguns casos até colocaria a vida dela em risco após a denúncia, como ocorreu com uma das entrevistadas de Silvia. 

Outro agravante é que este tipo de crime é tratado como crime passional, não só pela imprensa, como também pelas pessoas e o pior de tudo é que o termo é aceito, como uma forma de amenizar ou até mesmo justificar um assassinato ou uma agressão com uma paixão descontrolada. Terminou sua primeira fala citando Pondé, numa pequena aspa na revista Época na qual diz que provavelmente mataria sua esposa se soubesse de alguma traição da parte dela, alegando que daria uma boa história de Nelson Rodrigues e que o segredo de uma boa relação é mantê-la sempre forte e nervosa. Ah, Pondé... tão sábio!

Tanto Juliana quanto Silvia enxergam o feminismo como forma de liberdade, e não como opressão. Ambas comentaram as feministas radicais que insistem em desqualificar mulheres que não seguem a mesma linha de feminismo que, na visão delas, é mais uma forma de censurar o que cada uma quer ser.

Silvia comentou que quando trabalhava na Gloss, algumas pessoas usavam o termo “feminista” com a intenção de ofendê-la, sendo que o efeito era totalmente contrário. E falou sobre aquelas que tinham um pensamento feminista, mas não sabiam a respeito disso e que acabaram se encontrando com a ajuda dela. 

Ela também contou o que andou reparando no comportamento das pessoas com relação às mulheres: temos obrigação de sermos infelizes para que sejamos aceitas pela sociedade. Aquela mulher que tem muitos problemas e vive reclamando deles não sofre tantas críticas quanto aquela que é bem resolvida com suas escolhas e não tem a menor vergonha de assumi-las.
O debate ficou ainda mais interessante porque quem foi para assitir, acabou participando e deixando a noite mais rica. Abriu-se um espaço ainda maior de discussão, porque muitas mulheres se sentiram à vontade para dar seus depoimentos sobre o que acham do feminismo, exporem suas dúvidas, refletir a respeito delas e também contar experiências - horrorosas - nas quais o machismo foi extremamente presente em suas vidas. Casos de abuso físico e verbal em lugares como consultório médico, estação/vagão de metrô, sala de aula, entre outros, e o depoimento de uma garota cuja amiga foi vítima de slut-shaming após um estupro sofrido fizeram a ira de quem estava ali ficar pior.

São conversas como essas que fortalecem ainda mais o desejo de luta pelo direito da mulher ser o que quiser. Há quem diga que já conquistamos até demais - os mais ousados dizem que foi tudo. Não é necessário tanto esforço para perceber que esse discurso machista não passa de balela.


+ Vídeos postados no instagram da Lisandra com trechos da palestra:

http://instagram.com/p/e8S23mRIsx/

http://instagram.com/p/e8TpMSxIuN/

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Resultado da 21º semana de jornalismo

Imagem: Marina Braga

É com muito orgulho e lagrimas nos olhos que terminamos a noite desta terça-feira. Trazer para a semana de jornalismo alunxs em quantidade suficiente para lotar quatro salas com temas tão importantes, porém tão mal debatidos é emocionante.

As mesas discutiram temas de altíssima relevância social – o tratamento da questão racial pela grande imprensa, a retratação do feminismo nos grandes veículos de comunicação, o conteúdo disponibilizado em revistas ditas femininas e a produção de revistas voltadas ao público masculino. Ainda mais emponderador é saber que o debate foi além: convidadxs, alunxs e mediadorxs conseguiram ultrapassar os limites planejados pela Frente Feminista Casperiana Lisandra levando o debate para esferas que vão além da comunicação.

Tal sensação é motivadora e estamos só começando – com muita vontade de acertar, diga-se. Portanto, preparem-se, estamos prontxs e cheixs de vontade de abrir cada vez mais espaços para debates que se fazem tão necessários.

O primeiro passo dentro de uma grande ação da Faculdade nos mostrou que com dedicação é possível reascender o interesse da comunidade acadêmica para as discussões.

Aqui fica a nossa mostra de felicidade e uma nota de agradecimento a cada pessoa que disponibilizou tempo, criatividade e acreditou no potencial da FFCL.